Trovoadas de São Paulo

Trovoadas de São Paulo

dezembro 26, 2016 0 Por Beatriz Silva

Descubra as principais características do raio, um dos fenômenos mais potentes da natureza


Texto: Beatriz Silva
Imagem: Banco de imagens

Ah, o verão! A estação do ano mais esperada, aquela onde você fará coisas que serão relembradas pelo resto de sua vida e repassadas aos seus descendentes. Mas essa também é a época das fortes tempestades atingirem a capital paulista, com direito a rajadas de vento, queda de granizo e muitos… raios, um dos fenômenos mais poderosos da natureza.

Durante toda a antiguidade, os raios eram conhecidos como um castigo enviado pelos deuses, como Zeus, em seus momentos de ira com a humanidade. Conforme explica Marcelo M. F. Saba, pesquisador do Grupo de Eletricidade Atmosférica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), apenas no século XVIII, mais precisamente em 1752, Benjamin Franklin propôs uma experiência perigosa para verificar se as nuvens possuíam eletricidade: a ideia dele era que uma pessoa (muito corajosa, por sinal) subisse no alto de uma montanha em um dia de tempestade para verificar se de uma haste metálica isolada do chão pulariam faíscas em direção aos dedos a sua mão. Franklin não realizou a experiência, pois, além do perigo, não haviam montanhas altas o suficiente na Filadélfia, onde morava.

Em maio de 1752, Thomas François Dalibard realizou o experimento pela primeira vez. Sem saber disso, Franklin encontrou uma maneira de realizá-lo na própria Filadélfia: em um dia de tempestade, empinou uma pipa e observou pequenas cargas elétricas desceram a uma extremidade da linha, próxima à sua mão.

Antes que seu espírito curioso apareça, já avisamos que repetir a experiência não é uma boa ideia, muitos que tentaram acabaram morrendo.

Afinal, o que é um raio?

Raio é uma descarga elétrica luminosa e visível, produzido entre nuvens do tipo cumulonimbus. Um raio tem, em média, 30 mil ampères, cerca de mil vezes a intensidade de um chuveiro elétrico, e pode chegar a 25 mil graus centigrados, temperatura seis vezes maior que a do sol.

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Nuvens cumulonimbus. Possuem desenvolvimento vertical e em seu ápice podem atingir mais de 15 quilômetros de altura. Imagem: Banco de imagens.

 

Apesar disso, a energia do raio não é tão grande e isso acontece por causa da sua pequena duração, que é de cerca de meio milissegundo. É algo em torno de 300 kWh, equivalente ao consumo mensal de energia de uma casa pequena.

Para esse fenômeno ocorrer, é necessário que existam cargas de sinais opostos entre as nuvens ou entre nuvens e solos. Os raios podem ser divididos em descendentes (os que vão da nuvem ao solo) e ascendentes (solo-nuvem). Este último foi registrado no Brasil pela primeira vez em 2012, por câmeras instaladas no Pico do Jaraguá, que está localizado a 1.136 metros acima do nível do mar. No vídeo abaixo vemos o registro do Raio Ascendente.

Além desses dois tipos, também há os raios que não tocam o solo, que podem ser dentro da nuvem, da nuvem para o ar ou de uma nuvem para outra.

Qual a diferença entre raio, relâmpago e trovão?

O raio é o fenômeno da natureza, ou seja, o encontro entre as partículas elétricas positivas e as negativas. Já o relâmpago é o efeito luminoso do raio. Ele ocorre por conta da descarga de energia. Por fim, o trovão é o barulho produzido pelo raio, que acontece por causa da vibração forte gerada pelo deslocamento de ar.

Recordistas

O Brasil é conhecido por ser o recordista de descargas elétricas no mundo: a média é de 100 milhões de raios por ano, mais de três por segundo. Além do grande território, o país está localizado em uma região de clima tropical, o que favorece a formação de tempestades.

Em São Paulo não é diferente. Por conta de fenômenos como a ilha de calor e a poluição existente na região, a capital paulista é uma das cidades recordistas de raios do país. No dia 16 de fevereiro de 2011, a cidade registrou recorde de queda de raios em um único dia, foram 2.264. O maior número até então era de 2.100, registrado em janeiro de 2009.

Proteja-se dos raios!

Como você pode ver, raio não é brincadeira. A chance de uma pessoa ser atingida por um raio é uma em um milhão, mas é bom não arriscar. Então, aqui vão algumas dicas da Prefeitura de São Paulo para você evitar ser surpreendido por este fenômeno potente:

– Evite lugares abertos, como estacionamentos, praias, campos de futebol, clubes da cidade, cemitérios, parques municipais, etc;

– Não permaneça em rio, mar, lago, represa ou piscina, no caso da cidade nos lagos dos parques municipais, nas represas billings ou guarapiranga e nas piscinas públicas ou particulares;

– Se estiver no carro, mantenha os vidros fechados, sem contato com as partes metálicas do veículo;

– Caso não encontre um abrigo por perto, fique agachado com os pés juntos, curvado para frente, colocando as mãos nos joelhos e a cabeça entre eles até a tempestade passar, pois permanecer na posição horizontal aumentará o risco da descarga;

– Mantenha distância de objetos altos e isolados, como árvores, postes, quiosques, caixas d’água, bem como de objetos metálicos grandes e expostos, como tratores, escadas, cercas de arame;

– Evite soltar pipas, carregar objetos como canos e varas de pesca, andar de bicicleta, motocicleta ou a cavalo;

– Mantenha distância de aparelhos e objetos ligados à rede elétrica, como TVs, geladeiras e fogões;

– Evite o uso de telefone, a menos que seja sem fio ou celular. É sempre recomendável utilizar, dentro de casa, o telefone sem fio. Os telefones com fios ligados a tomada devem ser evitados, pois o fio do telefone transporta a corrente elétrica de um raio. Com relação aos celulares é recomendável não utilizá-lo na rua quando houver raios, pois a interferência gerada por uma descarga pode danificar o aparelho e causar leves queimaduras no rosto;

– Fique afastado de janelas, tomadas, torneiras, canos elétricos;

– Evite tomar banho durante a tempestade, pois o chuveiro elétrico está ligado à rede elétrica que alimenta a residência e se um raio cair próximo ou sobre a mesma poderemos ter o aparecimento de “voltagens” perigosas na fiação e a pessoa que está tomando banho pode tomar um choque elétrico pois a água é um grande condutor de energia.

Curiosidades

– A quantidade de energia existente em uma tempestade modesta é várias vezes superior à energia liberada pela primeira bomba atômica detonada no deserto dos Estados Unidos, em 1945. A diferença é que a bomba atômica libera toda sua energia em fração de segundos, já a tempestade faz isso durante vários minutos ou horas.

– Um trovão pode derrubar uma pessoa. Isso acontece caso a pessoa esteja muito perto do lugar onde caiu  o raio, dessa forma, o deslocamento de ar pode causar até a morte.

– Um raio pode sim cair mais de uma vez em um mesmo lugar. Ou, em uma mesma pessoa. Roy Sullivan é um exemplo disso. Guarda florestal do estado americano da Virgínia, ele foi atingido sete vezes por raios. Na primeira, em 1942, perdeu a unha do dedão do pé. nas quatro vezes seguintes (1969, 1970, 1972 e 1973) teve apenas queimaduras leves. Em 1976 feriu o tornozelo e em 1977 ficou com o peito e a barriga queimados. Apesar disso, suicidou-se em 1983.

– Para saber se o raio “caiu” perto, basta contar o tempo (em segundos) entre o momento em que se vê o relâmpago e se escuta o trovão e dividir por três. Assim, você descobrirá a distância aproximada em quilômetros.


Fontes: A Física das Tempestades e dos Raios, Marcelo M.F.Saba.
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
Prefeitura de São Paulo